domingo, 14 de novembro de 2010

Trabalho e consciência poética em Adília Lopes

Pra quê sacrificar mais uma página em branco?
se ainda escrevesse em peles de bezerros recém-nascidos
atrevia-me a sacrificar recém-nascidos?
acho que sim
(Adília Lopes)

No Brasil, talvez em Portugal também, a poetisa Adília Lopes não dispensa as apresentações. Ao contrário do que se pode pensar as literaturas brasileira e portuguesa continuam de algo forma entremeadas mesmo após a consolidação de um sistema literário brasileiro, dada a também consolidação de um sistema mundo, que inclui a arte. Seu trabalho muita vezes recebe o título de poesia pop, mas demonstra em muitas ocasiões sua ligação com a tradição lírica portuguesa e mundial. Pós-moderna, mas inserida em um sistema literário forte como o português.  Publicou seu primeiro livro “Um jogo bastante perigoso” em 1985 e tem publicado livros de poesia que costumam se aproximar da narrativa, e, com apenas uma exceção, nunca em grandes editoras. Apesar da grande “legibilidade” de sua poesia do ponto de vista literário, do ponto de vista do público continua desconhecida. Seus temas muitas vezes giram em torno da vida cotidiana, da casa, do amor, e muitas vezes do próprio fazer poético, como é característico da arte verdadeira, questionando-se. A beleza, no entanto, sempre perpassa todos os demais temas, com elementos que se aproximam do kitsch, há também muitas insinuações metalingüísticas.
Dadas essas características e lendo alguns poemas de Adília Lopes vemos eles demonstram a consciência poética e da arte como trabalho que essa poetisa tem realizado. Consciência poética é aqui entendida como aquela característica do artista que tem um senso crítico radical “com o aguçamento quase insuportável de uma visão crítica de sua função e da função da própria poesia”.
Em Louvor do Lixo, de 2002, Adília se apresenta como a mulher a dias, ou a diarista em Português do Brasil, que deve arrumar ao poema. Há uma aproximação com o trabalho diário, minucioso e comezinho de se limpar uma casa. Mas não basta deixar tudo em ordem, “desentropiar”, é necessário agradecer pelo ininteligível, pelo que não é possível organizar, deixar totalmente às claras. Assim, “é preciso agradecer ao pó, que torna o livro ilegível como o tigre”. A poeta nos chama atenção aqui para a importância de se olhar para a vida em si, o poema é a casa limpa e organizada, mas pelo pó e pelo cão que derruba e embaralha novamente o quebra-cabeças é possível não ler, mas interpretar e conhecer profundamente a vida, representada na forma do tigre neste poema. Aliás, a escolha da palavra puzzle, em língua inglesa,  ao invés de quebra-cabeças é uma maneira de desorganizar o poema de dar-lhe alguma ilegibilidade como faria o pó a que ela se refere. O mesmo nota-se no quase trava-línguas obtido nestes versos. Essa característica da poesia de Adília é muitas vezes criticada negativamente, chegando-se alguns críticos a dizer que ela faz jogos de palavra, mas não poesia.
A temática de oposição vida e arte pode ser muito bem notada também nos poemas A casa, [Clarice Lispector], [Não gosto tanto] e Rosas com bolores (de fato os poemas indicados entre colchetes não têm títulos, tratam-se do primeiro verso). Veja-se ainda problematização desta questão em versos de dois diferentes poemas:
“A vida é um livro/ e o livro/ não é livre”
“A vida não é um livro"
O bolor das rosas, os defeitos dos vidros, o pó, o cão que derruba o puzzle são elementos que nos revelam mais que uma métrica perfeita ou escolhas de palavras mais líricas, mais “poéticas” por assim dizer. No entanto, nos revelam ao dar alguma ilegibilidade, ao usar do corriqueiro e acentuar esses pequenos detalhes, destacando-os no poema. Não é mais um poema que trata da vida cotidiana, mas matéria prima da vida diária estilizada, cristalizada na forma lírica. Assim notamos o lirismo de Adília Lopes como uma maneira especial de recorte do mundo e de arranjo da linguagem. De maneira particular, o que lhe dá potência estética e originalidade, mas sempre dialogando com a tradição lírica que ela bem conhece, deixando isto claro em referências a:
Camões:
Com fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
e muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo.

Mallarmé: Não gosto tanto/de livros/como Mallarmé/parece que gostava
e mesmo, Clarice Lispector:
Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
ficam os peixes
como disse Santo António
aos textos

Nos deixa claro assim que é reconhecida a separação entre a vida e a arte. E que não é papel da arte, da literatura, saciar a fome, dar teto, evitar o caos, mas sim de sensibilizar para a desumanidade diária que se naturaliza aos nossos olhos. Ao nos apresentar um mundo completo, laborado, acabado que é produto do trabalho humano, de um poeta, Adília nos mostra que outros mundos são possíveis de se realizar, mais que isso, nos chama para a consciência de que este mundo cheio de defeitos é não obra de acaso, de fatalidade, mas também produtos de nossas ações como agentes históricos. È claro que este outro mundo construído é também o produto de um trabalho, um trabalho rigoroso, complexo, cansativo, como ela nos mostra em Rosas com bolores. Mas ao mesmo tempo é um trabalho que tem algo de perverso, como o sacrifício do bezerro recém-nascido para obtenção do material onde se escreve, o poeta tem que tirar da vida os elementos ou melhor tirar-lhes a vida para realizar sua poesia. Ela bem os sabe, como fica claro nos poemas que citamos aqui.
Se consideramos Adília Lopes uma poetisa de profunda consciência poética não é apenas porque ela consegue escrever seus poemas mostrando-nos apenas a ponta de um iceberg que nos leva a compreender sua parte invisível. È também porque a vida é a todo momento considerada e problematizada, como no poema que citamos na perífrase. E ainda porque o trabalho de poeta é esmiuçado como vimos em Rosas com bolores e reconhecido em sua potência como podemos notar em:
Com fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
e muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo.

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A casa

Os defeitos dos vidros
das minhas janelas
são tão antigos
que já não se fabricam
vidros com defeitos assim
há muitas décadas

Olho para o tecto
pintado de branco
com enfeites de estuque
e fico a ver as sombras
que os defeitos dos vidros
causam

Pelas janelas
vejo a luz do Sol
nos choupos
os azulejos azul-turquesa
da casa em frente
e os ferros pintados de verde-escuro
das varandas

In: Le vitrail La nuit * A áarvore cortada (2006)

Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
ficam os peixes
como disse Santo António
aos textos
In: Clube da Poetisa Morta (1997).


Louvor do Lixo
para Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terremoto ameaça
a entropia de cada dia
noss dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema  cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer ao pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão.

In: A mulher a dias (2002)


Rosas com bolores

Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre da minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e ossso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas Graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
hajaa bibliotecas
e se possa ler e escrever


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Uma postagem 'readymade'

O processo de acumulação artística se expõe quando comparamos estas obras: Roda de Bicicleta, Parangolé e Pier Espiral. Isso porque podemos considerar Smithson e Oiticica tributários da obra de Duchamp, no entanto, é possível notar uma série de 'avanços' quanto à primeira. Se tomamos como base a obra Roda de bicicleta, 1913, de Duchamp podemos considerar que a interação com o interpretante é bastante tradicional. Nas obras de Oiticica e Smithson ela parte para uma forma mais direta de interação, o que é claro não implica em diferenças de intensidade ou potencial estético da obra.
Se na obra de Duchamp a matéria prima pronta se compõe de um banco e uma roda de bicleta, na obra de Oiticica não apenas o tecido, mas também a idéia de parangolé e ainda na de Smithson teríamos as rochas, terra e água (earthwork) e a própria idéia de pier. Acredito ser importante diferenciar nessa obra que o que ganha novo valor, nova conotação é justamente a idéia do que seria um pier, ou seja, apenas é ressignificado o elemento que provém de um processo humano de elaboração e não os materias naturais utilizados.
Parece então haver um amadurecimento quanto ao que seriam os processos do homem frente à natureza (trabalho), não apenas o produto industrial é reconhecido como produto de trabalho, mas o tecido, as cores, as danças e as próprias idéias se enquadram agora nas linhas de produção.
Tanto no Parangolé,1964, quanto no Pier Espiral ,1970,podemos dizer que há uma noção de happening inclusa. Isto porque é possível considerar que estar obras apenas existem plenamente no momento em que são 'visitadas' ou seja no momento em que há um interpretante que interage com ela e como propoem seus criadores, especialmente Oiticica a criam simultaneamente. Digamos que a obra apenas existe em movimento, toda vez que o parangolé para a experiência estética plena cessa. Ao contrário de Duchamp, em que estar parado é que provoca a experiência, aliás, mais que isso a imposibilidade de se movimentar no seu senitdo utilitário e original dado à roda de bicicleta.
A obra de Duchamp pode ser vista em uma galeria, a obra de Oiticica se propõe a pelo menos diferenciar esta experiência, enquanto que a obra de Smithson subverte inteiramente a idéia de galeria, havaria aqui talvez um gradiente de deslocamento do local de exposição.
Portanto é nítido um ponto de partida comum, com diferentes afluentes e produtos que se mostram autônomos, como toda arte quer/pode/deveria ser.

P.S. Gostaria de sugerir uma olhada na obra do Stéphany Vigny - Ele expôs no Museu Inimá de Paula esse ano, é um representante jovem do readymade, achei bastante interessante. Neste site você clica em ouvres e depois clicando no título da obra é possível ver os trabalhos.
http://stephanevigny.free.fr/oeuvres.html